Quando escrevia meu nome completo, abreviava o último
sobrenome por achar que ele era simples demais e rebuscava, com todo orgulho
GAZZINELLI.
Mas, quando encarnava o papel de professora dos meus bichos
de pelúcia e bonecos, meu sobrenome sempre era CAVALCANTI. Achava interessante!
Mais tarde, já bem crescida, encontrei em uma revista
semanal, a profissão dos meus sonhos: VIROLOGISTA. Mas meu sonho não durou
cinco segundos. Foi o tempo de ler o parágrafo e entender do quê se tratava a
profissão.
Sempre achei fascinante a conjugação do PRETÉRIO MAIS QUE
PERFEITO. Os verbos ficavam elegantes, empinados. Parecíamos estar nos séculos
XVII e XVIII.
E as palavras OXÍTONAS, PAROXÍTONAS, hein? Que lindeza! Mas
a melhor de todas é a PROPAROXÍTONA. Soberana!
Eu nunca fui aquela aluna nota 10. Sempre fui MEDIANA, mas
guardei com carinho as palavras, digo, os ensinamentos do período escolar e da
convivência com os outros.
Cada disciplina me deixou um LEGADO de palavras bonitas;
significados; sons e aí, faço delas poesia.
Mesmo odiando Física e Matemática, guardei dessas temíveis
disciplinas lindas palavras: QUÂNTICA e OBTUSO, RESPECTIVAMENTE.
Na Química não tem nada mais interessante que a tal da
LIGAÇÃO PEPTÍDICA. Alô?
E na Biologia? Caio de boca! ALELOS, GINECEU, ANDROCEU,
ESTREPTOCOCOS, DIPLOCOCOS...
E alguém sabe o que é INTEMPERISMO? CENOZOICO? MESOZOICO?
Podem até ser palavras da Geografia, mas são músicas para meus ouvidos!
Da minha disciplina preferida, a História, nunca me esqueci
da guerra dos EMBOABAS, do FEUDALISMO e dos INCONFIDENTES.
Mas nada disso existiria se não fosse o PORTUGUÊS. Essa
língua majestosa. Confesso, não conheço 1/5 de suas regras e ordens. Mas tenho
verdadeira admiração pela nossa língua. Valorizo um LINGUAJAR impecável.
E sugiro: imagine trocar um xingamento comum por um “Seu
ANACOLUTO!” ou escrever esta mesma frase com uma letra bem ESCALAFOBÉTICA.
Experimente!
Não deveria ter escolhido nada diferente do que sou hoje.
Palavras me encantam muito mais do que qualquer gesto. Deve ser por isso que vivo
escrevendo. Seja num pedaço de papel ou nesta folha eletrônica aqui.
E, afinal, o que sou?