sábado, 21 de setembro de 2013

O que você vai ser quando crescer?

Enquanto cada coleguinha da escola respondia que seria médico, dentista, professora ou a profissão dos pais, eu respondi que seria AEROMOÇA. Mal sabia o que era aquela profissão e nunca tinha andado de avião. Mas a palavra me despertava encantos.
Quando escrevia meu nome completo, abreviava o último sobrenome por achar que ele era simples demais e rebuscava, com todo orgulho GAZZINELLI.
Mas, quando encarnava o papel de professora dos meus bichos de pelúcia e bonecos, meu sobrenome sempre era CAVALCANTI. Achava interessante!
Mais tarde, já bem crescida, encontrei em uma revista semanal, a profissão dos meus sonhos: VIROLOGISTA. Mas meu sonho não durou cinco segundos. Foi o tempo de ler o parágrafo e entender do quê se tratava a profissão.
Sempre achei fascinante a conjugação do PRETÉRIO MAIS QUE PERFEITO. Os verbos ficavam elegantes, empinados. Parecíamos estar nos séculos XVII e XVIII.
E as palavras OXÍTONAS, PAROXÍTONAS, hein? Que lindeza! Mas a melhor de todas é a PROPAROXÍTONA. Soberana!
Eu nunca fui aquela aluna nota 10. Sempre fui MEDIANA, mas guardei com carinho as palavras, digo, os ensinamentos do período escolar e da convivência com os outros.
Cada disciplina me deixou um LEGADO de palavras bonitas; significados; sons e aí, faço delas poesia.
Mesmo odiando Física e Matemática, guardei dessas temíveis disciplinas lindas palavras: QUÂNTICA e OBTUSO, RESPECTIVAMENTE.
Na Química não tem nada mais interessante que a tal da LIGAÇÃO PEPTÍDICA. Alô?
E na Biologia? Caio de boca! ALELOS, GINECEU, ANDROCEU, ESTREPTOCOCOS, DIPLOCOCOS...
E alguém sabe o que é INTEMPERISMO? CENOZOICO? MESOZOICO? Podem até ser palavras da Geografia, mas são músicas para meus ouvidos!
Da minha disciplina preferida, a História, nunca me esqueci da guerra dos EMBOABAS, do FEUDALISMO e dos INCONFIDENTES.
Mas nada disso existiria se não fosse o PORTUGUÊS. Essa língua majestosa. Confesso, não conheço 1/5 de suas regras e ordens. Mas tenho verdadeira admiração pela nossa língua. Valorizo um LINGUAJAR impecável.
E sugiro: imagine trocar um xingamento comum por um “Seu ANACOLUTO!” ou escrever esta mesma frase com uma letra bem ESCALAFOBÉTICA. Experimente!
Não deveria ter escolhido nada diferente do que sou hoje. Palavras me encantam muito mais do que qualquer gesto. Deve ser por isso que vivo escrevendo. Seja num pedaço de papel ou nesta folha eletrônica aqui.

E, afinal, o que sou?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Eu sigo sem fazer barulho

Eu preciso parar de guardar sentimentos. Sentimentos, desafetos e lágrimas.
Mas tal qual, preciso sair falando ao sete ventos sobre as cores do meu mundo?
Às vezes, vejo essa minha redonda Terra com cores gris e não acho que ela seja monótona. Prefiro a discrição pastel ao color block. Eu vejo beleza em meus dias cinzas.
Aprendi a seguir o meu caminho carregando, em meus ombros, uma tonelada de pitangas. Ora doces, ora azedinhas. A vida é assim.
Não almejo sonhos de ninguém porque determinadas realizações não fazem parte da minha lista de projetos. Muito menos desejo a vida de outrem. Jamais trocaria meus trinta e poucos anos pela inexperiência e insensatez. São seis por meia dúzia. Pra quê?
Ainda assim, percebo em mim uma bagagem infindável de pitangas, acerolas, melancias e jabuticabas que tenho orgulho em carregar. A carga é pesada, sim. O cansaço é inevitável. Mas aí, vem uma brisa leve, refrescante – diferente dos sete ventos –, que faz com que as dores do mundo sejam leves.
E ao sentir essa brisa leve, volto atrás. Guardo os meus sentimentos porque não vale a pena externar meus dias cinzas para pessoas que dizem viver em trevas.

E eu sigo sem fazer barulho, apenas sentindo o vento.